Considerações finais: Contracultura



 A moda, em seu sentido primordial como retrato da sociedade ou do indivíduo, da classe social ou de determinada época, ganha na contracultura valor diferente. Com urgência em diferenciar-se de toda a cultura convencional, hippies e punks, não só foram em busca de novas ideologias políticas, comportamentos, mas também de vestuários diferentes que expressassem aquilo em que acreditavam. Retrato dos confrontos com suas épocas, esses movimentos causaram furor no Ocidente. A música e a moda continuaram a fazer parte do cenário urbano nos anos seguintes. É comum encontrarmos pessoas que identificamos como hippies ou punks, apenas pelo vestuário, sem avaliar aquilo que o indivíduo defende e acredita politicamente.
Muitas vezes os próprios estudantes de Moda se prendem no fútil e frívolo, enquanto que um estudo mais profundo do processo cabe aos sociólogos, filósofos e antropólogos. Os do meio são muito culpados pelo descaso dado ao tema. Se todos usassem o vestuário de forma consciente daquilo que está representado, o tema ganharia ares políticos.

Moda como meio de expressão: Punks



The dream is over e o movimento punk

Fim dos anos 1960. Os ídolos da música estavam mortos. Os Beatles se separaram. Woodstock já havia dado seus frutos. O movimento hippie havia morrido.
Quando John Lennon vaticinou não apenas o fim daquele que fora o movimento musical mais importante deste século, mas também a decadência a que fora conduzida sua própria geração, com “o sonho acabou”, não estava fazendo nada além de anunciar o início de um novo tempo para a música popular.
(CORREA, 1989, p. 82)

Os hippies de outrora já não se diferem da sociedade. Já são adultos e ‘responsáveis’. A moda se padroniza. O capitalismo vence. O mundo está em busca do anonimato. O jeans se torna roupa necessária no guarda roupa de todos. A moda se torna psicodélica. Outros estilos invadem as ruas. David Bowie populariza seus instigantes modelitos.
Foi nesse cenário de desolação que surgiu o movimento punk. Não mais protestando pacificamente, mas levando suas ideologias as pessoas de forma agressiva e simples. A música tocada de maneira brusca, com letras negativas, com poucos instrumentos, os punks tomaram as ruas. Enquanto que os hippies se fortaleceram nos Estados Unidos, devido à situação econômica e social do país, com os punks foi o mesmo, mas na terra da Rainha. Eram os anos de 1970. A Europa encontrava-se em crise. O nível de desemprego era alarmante.
As filas para conseguir um trabalho erahm enormes. Jovens se aglutinavam para receber os benefícios sociais. Jovens que ainda não tinham conseguido sequer adquirir experiência trabalhista. Sem ocupação ou profissão, se encontravam sem saída. A não ser reclamar. Mas para quem?
Os jovens encontravam-se perdidos. Não havia a quem recorrer. O hippie que tinha em seu meio, maior parte, pessoas provindas de famílias de classe alta, agora no punk, não. Eram aqueles que estavam na periferia, fora do sistema, vivendo em ambientes imundos, desesperados. O punk não poderia ser de outro jeito. Tanto pela origem de seu nome, que em inglês é lixo, mas também estopim.
Bandas de punk eram o que mais surgiam a cada dia. Sex Pistols, The Ramones, Blonde violentava com letras agressivas aqueles que ouviam suas músicas. Sem conhecimento prévio de teoria musical, partituras, acordes, muitos não sabiam nem mesmo tocar instrumentos, a música punk embalava a mente e o espírito daqueles jovens que se desiludiram do Sistema.
Ao contrário do pacifismo dos hippies, os punks não tinham medo de admitir: eles eram muitas vezes pró-anarquismo, tinham opinião política forte e não tinham oposição ao uso da violência contra aqueles que não concordassem.
Tal visão se mostrava em suas vestimentas. Coleiras de cachorro, brincos, roupas pretas, bastante couro, adereços de metal, maquiagem escura, sujos, tatuagens. O moicano inspirado nos índios nativos americanos era a marca registrada: assim como o povo moicano se recusava a ser controlado pelo branco, o punk se negava a servir ao Sistema.
Muito embora, naquele mesmo instante, já tenha havido grande consumo e produção do estilo punk. Lojas de grife incorporavam apetrechos dos punks em suas coleções. Mas, ao invés da coleira do cachorro, utilizavam a prata para fabricar o adereço. A moda punk foi muito comercializada, até hoje o é, contrariando o “faça você mesmo”.
O movimento punk é um dos poucos da contracultura que ainda tem força na cena alternativa, com os góticos, os grunges, o new wave. Muitas vezes, pessoas que buscam vestir-se diferente do convencional, recorrem ao repertório punk, mas sem o significado político.


Bibliografia
PEREIRA, Carlos Alberto. O que é contracultura.  4. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1986.
BIVAR, Antonio. O que é punk.  4. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988.
LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero: A moda e seu destino nas sociedades modernas. 1.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. 
CORREA, Tupã Gomes. Rock, nos passos da moda: mídia, consumo x mercado cultural. Campinas, SP: Papirus, 1989.