Entrevista com Gilles Lipovetsky: Beleza para todos

Gilles Lipovetsky, famoso filosófo francês chocou o mundo ao lançar (em minha opinião, o melhor livro de moda já lançado) O Império do Efêmero, no qual ele pensa a moda como parte vital, importante do desenvolvimento da sociedade moderna. Fuçando no site da Veja esses dias acabei por encontrar uma entrevista concedida à revista em 2002,  às vésperas do lançamento de seu outro livro referente ao luxo: O Luxo Eterno

Aqui transcrevi a entrevista com Lipovetsky, e aproveito para recomendar O Império do Efêmero para que quiser entender a importância e relevância do fútil no Ocidente. Quem quiser pode também conferir um post que eu fiz sobre o livro, que é o resumo do resumo do resumo: Moda: O Império do Efêmero. Na entrevista discute-se a importância da moda na política, na vida dos consumidores, o culto à aparência e etc.

FONTE: Veja.com.br


Beleza para todos

Por Silvia Rogar

O francês Gilles Lipovetsky, 58 anos, é um dos nomes mais criativos e polêmicos do pensamento filosófico contemporâneo. Foi ativista dos movimentos que culminaram no maio de 1968, teve participação importante na reformulação do ensino de filosofia na França e, atualmente, trabalha para o programa europeu de unificação escolar. Reconhecido como um intelectual "sério", causou polêmica quando lançou O Império do Efêmero, em 1987. O livro aborda a moda ocidental, de sua criação, no século XIV, até o século XX. Para Lipovetsky, o assunto não se encerra no vestir, mas está interligado ao bem-estar, ao consumo e à mídia. "Não é possível compreender a evolução da sociedade sem dar importância à moda, à sedução, ao luxo", diz. Seu próximo livro, sobre o luxo, será lançado no ano que vem, na Europa. No início de outubro, ele estará no Rio de Janeiro, para o seminário "O luxo de cada dia". Na semana passada, Lipovetsky falou por telefone a VEJA, de sua casa, em Grenoble, na França.

Veja – Seu trabalho foi muito criticado quando o senhor começou a se dedicar a temas considerados fúteis, como a moda e o luxo. Isso foi em 1987. Hoje, esses assuntos conseguiram lugar no meio acadêmico?
Lipovetsky – A academia, em particular sociólogos e historiadores, está mais aberta a essas reflexões. Ainda existe, no entanto, uma resistência muito forte. Está quase no "código genético" da filosofia a crítica às aparências. Mas a moda virou uma questão central na sociedade pós-moderna. Não foi pelo lado frívolo que me dediquei ao assunto, e sim porque a moda hoje não se restringe ao vestuário. Ela rege outras esferas da vida, como o culto ao corpo, o consumo e o bem-estar. Não dar lugar a ela é não querer olhar de frente para o que é hoje a nossa sociedade.


Veja – Quinze anos depois, que conceitos de O Império do Efêmero o senhor reviu?
Lipovetsky – Naquela época, eu queria manifestar minha revolta contra a demonização do consumo e da mídia. Mantenho a opinião de que eles não são os demônios de nossos tempos. Mas hoje estou mais sensível aos aspectos negativos do império do efêmero. O principal é que ele cria um paradoxo: quanto mais a sociedade se volta para o espetáculo, para a frivolidade, mais aumentam sua ansiedade, angústia e depressão. Estou mais sensível também à pobreza e às desigualdades sociais, questões que não abordei em 1987. São problemas criados por regras econômicas do mundo moderno e agravados pela omissão do Estado. Mas a sociedade regida pelo efêmero contribui para mantê-los.


Veja – Quais seriam os demônios de hoje?
Lipovetsky – Não acho que devemos apontar um só culpado pelos problemas atuais. Hoje, quando falamos nesse assunto, surge imediatamente a palavra globalização como a síntese de todos os males. Mas devemos discutir seus diferentes efeitos. Estamos numa época em que todos os modelos radicais perderam credibilidade. Não precisamos de mudanças drásticas nas grandes questões do mundo atual. O importante é fixar regras dentro de um mundo aberto.


Veja – Nesse mundo aberto, a moda deixou de ser algo que define marcadamente classes sociais, como acontecia no passado. Houve uma democratização do supérfluo?
Lipovetsky – Incontestavelmente sim, se tivermos como referência o nascimento da moda no Ocidente, na segunda metade do século XIV. No início, a moda só dizia respeito a um mundo muito pequeno, à corte. Depois ganhou a alta burguesia e, desde o século XVIII, outras camadas burguesas. Ao longo do século XX, sobretudo em sua segunda metade, a percepção do supérfluo como um ideal de consumo estendeu-se por toda a sociedade ocidental.


Veja – Isso não é contraditório com a constatação de que a desigualdade mantém-se e acentua-se no mundo de hoje?
Lipovetsky – Não digo, evidentemente, que houve uma democratização do acesso ao consumo, mas sim a massificação de um ideal de consumo. Nos bairros mais pobres, por exemplo, os jovens querem e fazem sua própria moda. A grande mudança é que, na organização social anterior, as camadas populares se conformavam com a sua posição, existia pouca vontade de mudar. A sociedade de consumo legitimou o ideal de viver melhor. O poder de compra continua dividido, mas o desejo de melhorar de vida é hoje praticamente universal.


Veja – Quando a burguesia passou a imitar o vestuário da nobreza, as cortes tentaram criar leis para impedir as cópias. Hoje, boa parte das grifes de luxo têm marcas secundárias, com preços mais baixos. Qual é o fenômeno por trás disso?
Lipovetsky – A nobreza tinha interesses nacionais, como, por exemplo, impedir o uso de ouro nas roupas para não diminuir suas reservas do metal – além, é claro, de deixar explícita sua superioridade em relação aos plebeus. Hoje, a estratégia é diferente. Criou-se um luxo intermediário. São produtos lançados por grifes caras porém acessíveis a uma parcela maior da população. Não deixa de existir a diferença de status. Mas é inegável que houve uma democratização da oferta do luxo.


Veja – Quais são os principais objetos de desejo nesse novo padrão de consumo?
Lipovetsky – Em primeiro lugar, a comunicação, através de seus novos objetos, como computador, acesso à internet, telefones celulares. Hoje, o bem-estar está associado à mobilidade, ao acesso à informação e à rapidez. O que seduz na comunicação passa, cada vez mais, por tudo que acelera as coisas, pela possibilidade de estar conectado com o externo, com os outros. No outro grupo, estão os objetos de sedução ligados ao corpo e à saúde. Existe uma verdadeira obsessão pela saúde e tudo que contribui para nos tornar mais jovem e em forma. Uma alimentação mais saudável exerce uma sedução muito forte nos consumidores. É um novo padrão, em que a saúde e a segurança ocupam lugar de destaque. Um forte argumento de venda de carros de luxo, por exemplo, são os sistemas de proteção ao corpo, como o air bag e os mecanismos contra roubo.


Veja – Com a globalização da indústria da moda, o que deve mudar no vestuário? Há como preservar identidades ou vamos assistir a uma pasteurização total?
Lipovetsky – No século XIX e até a primeira metade do século XX, a moda era mais artística. Na época de globalização, é necessário ter um bom faturamento, sem riscos. Hoje, escuta-se mais o que as pessoas querem usar. A maior parte da indústria da moda em todo o mundo observa o que o consumidor quer e produz dentro dessa demanda. Isso não significa pasteurização. As pessoas se vestem de forma muito parecida, mas não podemos dizer que não há individualidade. Hoje, o individualismo é escolher, dentro da oferta, o que mais agrada. É mais psicológico que estético. O mais provável é que teremos uma moda de qualidade, mas com pouca audácia de estilos.


Veja – É isso que explica o declínio da alta-costura?
Lipovetsky – Exatamente. A alta-costura foi o pólo maior da moda moderna. Nos anos 20, chegou a representar 15% das exportações da França. Agora, não é mais o vetor principal de criação. Isso acabou. O mercado de luxo é dominado por marcas como Calvin Klein, Armani. Fazem roupas caras, que no entanto não são um luxo impensável.


Veja – O senhor disse recentemente que fica difícil, hoje em dia, distinguir o que está na moda ou fora dela. Não existe mais uma imposição no vestir?
Lipovetsky – A oposição entre o que "está na moda" e "fora de moda" continua muito forte no mundo adolescente, e quase exclusivamente nele. Quase não existe fora dessa faixa etária. Acabou a tirania na forma de vestir. Antes, se a nova moda fosse a minissaia, quem usasse um modelo longo estaria fora dos padrões. Hoje podemos ter uma tendência da saia mais curta, mas quem vestir um longo não se sentirá forçosamente fora da moda. Existe uma multiplicação de estilos, um vestuário mais flexível.


Veja – Mas as mulheres continuam submetidas à ditadura da aparência.
Lipovetsky – Sim. O vestuário foi substituído pela ditadura da magreza e da juventude. A ansiedade que domina as mulheres quando estão gordas ou com celulite mostra essa tirania. Antes, as filhas sonhavam em se parecer com suas mães, queriam usar roupas parecidas. Hoje, acontece exatamente o contrário, as mães é que desejam ter a aparência mais jovem. Estar em forma e não envelhecer é a obsessão número 1 de hoje.


Veja – A que o senhor atribui essa mudança?
Lipovetsky – O corpo passou a ter outro valor na sociedade democrática e tecnológica, que recusa a submissão ao destino. Na sociedade tradicional, a beleza era considerada um dom. Se você não nascia belo, restava-lhe a resignação. Agora, num universo individualista, o que dá grandeza ao homem é não se acomodar. Quem é gordo ou narigudo pode fazer dieta, plástica e ficar bonito. Você pode lutar ou pagar para ser belo. Não deixa de ser um paradoxo. A imposição da magreza, ao mesmo tempo que atinge indiscriminadamente todas as pessoas, é também uma forma de o indivíduo tomar posse do próprio corpo. A tirania da beleza pode oprimir, mas permite que a mulher se mantenha jovem e sensual por mais tempo.


Veja – Até agora, falamos do sexo feminino. No entanto, nos últimos anos, a preocupação masculina com a aparência só fez crescer. Como se comporta esse homem vaidoso?
Lipovetsky – A partir da década de 60, o homem passou a olhar mais para a moda e para seu corpo. Isso é uma das manifestações do aumento do individualismo: a preocupação consigo mesmo. A vaidade masculina cresceu junto com a valorização do lazer, do esporte, de uma vida saudável. É diferente da vaidade feminina. O homem quer estar bem de uma forma global, seu cuidado é mais em ter um corpo saudável. Ele só tem preocupações estéticas específicas quando os cabelos começam a cair ou a barriga está grande demais. Enquanto isso, a mulher se apega ao detalhe. Ela pode ser linda mas ficar insatisfeita com a pálpebra ou com seu ombro. Quando está 2 quilos acima do peso, já corre para fazer dieta. Ela se observa permanentemente.


Veja – Por que essa obsessão?
Lipovetsky – Porque o belo continua sendo um atributo mais feminino que masculino. É algo que vem da Renascença, quando a beleza era sagrada e, para preservá-la, a mulher ficava condenada a um papel limitado, doméstico. A sociedade de consumo e o movimento feminista mudaram esse quadro, mas a mulher não deixou de ter uma identidade visceralmente ligada à estética. Ela pode ocupar cargos importantes, ganhar dinheiro, mas continua investindo na aparência. A diferença fundamental é que, agora, a beleza não restringe mais sua ação.


Veja – Num de seus estudos mais recentes, o senhor escreveu que esta nova mulher não se deixa mais encantar pela conquista no estilo Don Juan. A grande arma de sedução masculina, em sua opinião, estaria em ser divertido, ter senso de humor. Não parece pouco?
Lipovetsky – Parece pouco, sim, mas é o que mais aparece nas pesquisas feitas com as mulheres hoje. O senso de humor está ligado à inteligência e tem boa receptividade numa sociedade que valoriza o lazer e o bem-estar. É uma característica que faz a mulher sentir-se tratada como um ser igual, e não como um objeto sexual. A palavra que o homem dirige a ela tornou-se muito importante. Há outra mudança notável: não se começa mais uma relação falando de amor, como no estilo Don Juan. Primeiro, os dois se conhecem com um espírito apenas de comunicação, de contato, não de sentimento amoroso.


Veja – E na política? Que papel tem a moda na sedução do eleitor?
Lipovetsky – A moda é usada na comunicação política de maneira mais ampla que a simples forma de vestir. Faz parte de um processo que tornou o discurso mais acessível, passou a mostrar os candidatos em situações mais cotidianas, para atingir mais as pessoas durante a campanha. Isso nasceu para tornar a propaganda eleitoral mais interessante. Mas a tendência da sociedade contemporânea continua a ser de desconfiança, de distância da política. Ou seja, a lógica da moda, da sedução e do consumo não atrofiou o senso crítico dos cidadãos.


Veja – Mas a imagem continua sendo importante, não? No Brasil, o candidato que lidera as pesquisas, Luís Inácio Lula da Silva, mudou o discurso, mas também aparou a barba, cortou o cabelo, passou a usar ternos bem cortados...
Lipovetsky – Com certeza, a preocupação com a aparência contribuiu para sua imagem, mas o mais importante foi a mudança de suas posições, agora mais moderadas. Ele atenuou o discurso em relação ao FMI e à globalização, por exemplo. As razões que levam um candidato à Presidência de um país passam longe da simples aparência. A maioria dos políticos, aliás, não é particularmente sedutora. Veja José María Aznar (primeiro-ministro espanhol) ou George W. Bush. Não são pessoas propriamente preocupadas com moda.


Veja – O senhor se considera uma pessoa preocupada com moda? Gosta de grifes?
Lipovetsky – Os filósofos hoje não têm mais aquela imagem de que vivem fora do mundo, que não se preocupam com coisas materiais. Mas não me preocupo com marcas, que são apenas instrumentos para dar segurança ao consumidor de que está adquirindo um produto de boa qualidade. Sou um consumidor absolutamente banal. 

Um comentário:

  1. Esta mudança de perspectiva entre a sociedade e a moda acho espetacular... uma influenciando e definido a outra.

    ;D

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